Aprender a lidar com sintomas físico-sensitivos

A dor neuropática e as alterações sensitivas, visuais, do equilibro e coordenação motora são alguns dos sintomas físico-sensitivos que as pessoas com EM podem experimentar. Contudo, existem várias formas para controlar de forma eficaz estas adversidades e conquistar uma boa qualidade de vida.

 

Dor neuropática

A International Association for the Study of Pain (IASP) define dor como “uma experiência multidimensional, desagradável, envolvendo não só uma componente sensorial, mas também um componente emocional”. De facto, a dor tem um carácter complexo, subjetivo e multidimensional, que é similar às diferentes situações de dor, sendo um sintoma normalmente provocado pela doença em si, pelas intervenções de tratamentos e pela imobilização.

A resposta individual à dor pode ser influenciada e/ou condicionada por vários fatores, como a idade, o sexo, o medo e a ansiedade, a atitude, a cognição, a personalidade, a cultura, a crença e o ambiente circundante e, pela sua frequência, pode causar incapacidade.

É frequente a dor ser referida como um dos sintomas de mais difícil gestão associada à EM, contribuindo para a diminuição da qualidade de vida, das capacidades motoras, profissionais, de realização de tarefas do dia-a-dia e das relações familiares. Sabe-se, aliás, que a duração da doença, a escala de EDSS, o tipo de EM e o número de surtos no último ano não influencia a presença de dor.

Para um eficaz controlo da dor, é fundamental o apoio de uma equipa multidisciplinar, na qual fazem parte integrante a família/doente, cujo objetivo se centraliza no alívio da carga do sintoma e, consecutivamente, na melhoria da qualidade de vida.

Uma grande maioria de doentes referem mais do que um tipo de dor e, uma vez avaliada e reconhecida, esta deverá ser tratada precocemente, existindo fármacos com eficácia demostrada no seu tratamento.

A intervenção de Enfermagem é uma pedra elementar num acompanhamento individualizado na gestão da analgesia e na implementação de estratégias não farmacológicas no alívio e controlo da dor. Estas estratégias de intervenção deverão ser usadas como complemento aos fármacos e não como substituição dos mesmos.

Assim, podemos abordar estratégias de intervenção de ordem física par a dor, como:

  • Aplicação de frio/calor (termoterapia)

A utilização de gelo possibilita um efeito analgésico no local da dor, permitindo diminuir a inflamação, o edema, o espasmo muscular e a rigidez articular. O frio deverá ser aplicado durante um período não superior a 10-15 minutos. É uma opção contraindicada no caso de pessoas com problemas vasculares periféricos, locais com alteração da sensibilidade, queimaduras e artrites. Já a aplicação de calor deverá ser realizada entre 15-20 minutos para uma função vasodilatadora, possibilitando o relaxamento muscular e, consequentemente, o alívio da dor. É contraindicada nos casos de edema, inflamação, febre e igualmente com problemas vasculares periféricos, transtornos da sensibilidade e artrites.

  • Exercício físico

É importante para o sedentarismo, o controlo e alívio da dor, para a recuperação muscular, aumento da amplitude dos movimentos e a minimização da atrofia muscular. Deverão ser realizados movimentos que promovam o alongamento, a resistência e diminuição da rigidez.

  • Massagem

Poderá ter a duração de 30-60 minutos e tem como objetivo a redução da espasticidade, eliminação de toxinas, redução de edemas e relaxamento físico e mental. Está desaconselhada em caso de lesões musculares, fraturas recentes, distúrbios circulatórios, doenças da pele, hipertermia e inflamações agudas.

  • Estimulação elétrica nervosa transcutânea (TENS)

É uma técnica não farmacológica, que utiliza impulsos elétricos na pele com a finalidade de controlar a dor.

  • Posicionamentos adequados ao bem-estar

Estes posicionamentos são realizados pelos enfermeiros e instruídos ao doente/família. Têm como finalidade a prevenção de alterações músculo-esqueléticas e espasticidade, preservar a integridade cutânea, melhorar a função respiratória e promover o bem-estar físico e psíquico.

  • Técnica incorreta à administração da terapêutica

Uma incorreta administração da terapêutica pode produzir dor e reação no local da injeção. É o enfermeiro que deve ensinar, instruir e treinar a execução de uma boa prática de autoadministração, com o propósito de minorar as consequências indesejáveis e, consequentemente, diminuir a dor.

 

Alterações sensitivas

A terapêutica sintomática no tratamento das alterações sensitivas é muito importante, sendo o diagnóstico destas alterações, por parte da equipa de enfermagem, essencial para prevenir o risco de acidentes e da integridade cutânea devido a alterações da sensibilidade.

O objetivo é que a pessoa EM/família consiga reconhecer potenciais riscos e reduzi-los ou eliminá-los e adotar hábitos seguros para diminuir a frequência e gravidade dos acidentes.

  • Risco de quedas

Evitar andar sobre o chão molhado, retirar tapetes, usar calçado fechado e evitar escadas instáveis. Se necessário, recorrer ao uso de auxiliares na marcha.

  • Prevenção de queimaduras

O enfermeiro deve ensinar sobre a prevenção de queimaduras, a gestão da temperatura da água no banho ou no lavar da louça. É essencial ter conhecimento dos riscos ambientais, tais como calor/frio extremo e fontes de calor, como aquecedores, fogão ou forno. É importante que o doente saiba fazer uma inspeção periódica e correta da integridade da pele.

  • Prevenção de úlceras de pressão

É essencial a manutenção de uma hidratação e nutrição adequadas, ter conhecimentos sobre cuidados da pele e usar sabão neutro de forma a minimizar a irritação na pele. É importante usar equipamentos para alívio da dor e adotar posicionamentos adequados, alternando sempre que necessário. Nesta área de intervenção, utiliza-se uma abordagem apoiada na evidência e focada no bem-estar do doente, recomendando e promovendo a adesão terapêutica, controlando os sintomas e a educação para lidar com a doença.

 

Alterações visuais

É frequente a pessoa com EM apresentar perda da acuidade visual, habitualmente de forma unilateral, progredindo numa semana. O tratamento médico pode reduzir o período de restabelecimento, mas não tem impacto sobre a dimensão de possíveis sequelas.

Pode ser essencial a reabilitação visual tendo em conta as necessidades de ampliação das imagens para o doente. Pode ser indispensável fazer oclusão de um olho por pequenos períodos para o cumprimento de determinadas ações. Poderá ser indicado o uso de lentes corretivas ou uma lupa.

 

Alterações de equilíbrio e coordenação motora

Atualmente, a escala mais utilizada na avaliação do grau de incapacidade motora é a Expanded Disabilaty Status Scale (EDSS). Após esta avaliação, a pessoa com EM pode beneficiar de tratamento farmacológico de forma a melhorar a capacidade da marcha e coordenação motora. Como complemento à terapêutica existe a reabilitação, que tem por base o estímulo de mecanismos naturais, como a competência que o sistema nervoso central tem em se ajustar a novas situações resultante do curso da doença.

Diferentes estudos apresentam evidências positivas do exercício físico na reabilitação, ditando como principal benefício a melhoria da incapacidade, o aumento da força e função muscular, a normalização da marcha, a diminuição da fadiga e o bem-estar psíquico.

Este tipo de intervenção requer um planeamento e diagnóstico adequado da equipa multidisciplinar, com a finalidade de promover a autonomia e qualidade de vida da pessoa com EM.

Desta forma, são realizadas intervenção ao nível da manutenção da mobilidade, com técnicas de exercício muscular e articular ativos, ativos-resistidas ou passivas, exercícios de fortalecimento/controlo do tronco e membros superiores, técnicas para o controlo da espasticidade, treino de transferência/marcha/equilíbrio e utilização de equipamentos adaptativos e auxiliares da marcha.

 

Bibliografia:

  1. Enfermeiros de Portugal. Enfermagem Em Esclerose Múltipla, cuidar da pessoa com Esclerose Multipla-Novartis, pg.83-202.
  2. Fernandes,C., Veloso,C., Carvalho,M.J.,: (2018) O ABC da Esclerose Multipla, o seu apoio a cada momento, pg 47- 48.
  3. Soares,M. de La Salete (2006) pg. 44-48.

Fernández,O. ,Fernández,V.E., Guerrero,M., Esclerosis Múltiple

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