A esclerose múltipla não é uma doença recente. Muito antes de ter nome, muito antes de existir um método científico capaz de a descrever, já deixava as suas marcas nos corpos, nos relatos, nos registos medievais de doentes que sofriam sem saber porquê. É uma doença antiga, silenciosa e persistente, que a humanidade demorou séculos a compreender.
Foram precisamente esses relatos, assim como as descrições minuciosas de sintomas e da sua evolução que permitiram identificar a presença da doença e confirmar que sempre existiu, muito antes de qualquer ferramenta científica para a catalogar.
Quando essa ferramenta chegou, a esclerose múltipla foi das primeiras doenças a ser descrita com rigor. Em 1868, Jean-Martin Charcot, professor de neurologia na Universidade de Paris e figura que viria a ser conhecida como o “pai da neurologia”, observou com atenção uma jovem com um tremor invulgar, diferente de tudo o que já tinha visto. A este somavam-se outros sinais perturbadores: fala arrastada, movimentos oculares anormais. Após a sua morte, o exame ao cérebro revelou cicatrizes de um tipo muito característico.
Charcot, que deu nome à doença, dedicou-se então a documentar a doença com toda a minúcia possível, descrevendo as alterações cerebrais que a acompanhavam. Mas fê-lo com uma frustração crescente: não conseguia encontrar causas, e a doença resistia a todos os tratamentos que tentava, desde estimulação elétrica, estricnina a injeções de ouro e prata. A medicina observava, mas ainda não compreendia.
Poucos anos depois, em 1878, a doença foi reconhecida formalmente em Inglaterra pelo Dr. William Moxon e, nos Estados Unidos, pelo Dr. Edward Seguin. No virar do século, a observação clínica já tinha revelado aspetos fundamentais: que a esclerose múltipla é mais frequente nas mulheres do que nos homens, que não é diretamente hereditária e que se pode manifestar através de uma grande variedade de sintomas neurológicos. Mas a observação tinha os seus limites, e para ir mais longe eram precisas ferramentas mais poderosas.
Essas ferramentas chegaram com o século XX. As descobertas sobre bactérias e vírus, e as técnicas para os estudar, abriram novos horizontes. O Dr. James Dawson, da Universidade de Edimburgo, realizou exames microscópicos detalhados aos cérebros de doentes que tinham falecido com a doença e descreveu a inflamação à volta dos vasos sanguíneos e os danos na mielina, ainda que, nessa época, o conhecimento sobre o funcionamento do cérebro permanecesse muito limitado.
As décadas seguintes trouxeram mais estudos e novas teorias. Nos anos 20 do século passado, suspeitava-se que uma toxina ou veneno poderia estar na origem da doença. Mais tarde, olhou-se para a circulação sanguínea. A ciência avançava por tentativas, construindo e demolindo hipóteses.
Hoje, o quadro é muito mais nítido. Sabe-se que a esclerose múltipla é uma das doenças neurológicas mais comuns do mundo, presente em praticamente todas as idades e latitudes, embora com uma predileção marcada pelos jovens, especialmente mulheres. Envolve uma predisposição genética, mas não se transmite diretamente de pais para filhos.
Os seus sintomas são súbitos e variados: perda de visão, paralisia, dormência, dificuldades em caminhar. Surgem e desaparecem sem um padrão definido, tornando o diagnóstico um desafio. Tudo porque a mielina, a substância que envolve e isola as fibras nervosas, essencial para que os nervos conduzam os sinais elétricos, é progressivamente destruída. Quando a mielina falha, os nervos falham. E com eles, o corpo.
Uma doença antiga, ainda por dominar por completo. Mas, pela primeira vez na sua longa história, com tratamentos capazes de mudar o seu curso.
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